Ao sair de Luz, o sol das 17 horas estava a minha direita. Deitava sua luz nos pastos verdes nessa época do ano. E o verde brilhava, enchendo meu cérebro de energia. Muitas roças de cana e também de soja, cultivadas pela Usina de açúcar, arrendadora de muitas fazendas na região. Cada terreno está de um jeito: alguns foram arados, outros receberam a gradagem e mostram as vísceras da terra vermelha arroxeada por essas bandas. Outros já exibem suas roças bonitas e viçosas. Os fazendeiros já plantaram suas roças de milho e muitas já tem pendão. Não demoram "embonecar", que é quando as espigas soltam a cabeleira loira, transformando a roça num playground de bonecas. E meus olhos curiosos vão captando todas essas coisas, que correm junto com a velocidade do auto. Há muitas árvores que já sei identificar, como as mandioqueiras, as maminhas-de-porca, as barrigudas, os ipês - mesmo sem flores, os coqueiros indaiá e macaúba, as unhas-de-gato, as sucupiras, mamoneiro e pequizeiros. Ah, os bambus são mágicos para mim. E ladeando as sedes das fazendas, toda a espécie frutífera, também as gameleiras e os falboyants, esses últimos me deixam estonteada com sua beleza rubra. Meus olhos espicham tanto, e uma alegria indizível visita-me. - Ah, menina roceira... ocupas sua mente com essas coisas tão sem importância, como se vivesses no mundo da lua...
Sacerdotisa da Natureza
Publicação de meus escritos - poemas, crônicas, contos e livros
domingo, 31 de janeiro de 2021
A Lua
Cheguei a janela do meu quarto e fui surpreendida por ela me espiando. Estava já alta, e o halo lunar lhe esmaecia o contorno. Trocamos outro olhar, cúmplice e cheio de segredos. É que mais cedo nos encontramos. Depois de uma curva bem fechada na rodovia, à esquerda, por volta das 18:30 h, ela apareceu-me à direita. Grande e redonda, parecia vestida de voil branco e transparente. Diáfana lua! E se eu subia ou descia pela estrada, ou virava à esquerda ou à direita, ela brincava comigo de esconde-esconde. Saía detrás das árvores, pulava feito bola, escondia-se atrás dos morros e barrancos. Reaparecia de novo, arteira! Certa vez, ficou por uns segundos acima da copa de uma mandioqueira e me lembrou a Sagrada Comunhão acima do cálice, sustentada pelas mãos do sacerdote. De outra, ela me apareceu bem à frente, esplendorosa como uma alva noiva. Trocamos um olhar tão compenetrado, que acho que São Jorge caiu do cavalo! E quando me dei conta, ela estava no leste e o sol no oeste, manchando o ocaso de tons alaranjados. Eu, no meio, testemunhando um encontro tão intenso e curto no espaço do tempo... talvez o sol chorasse sangue por ela, belíssima noiva! Ao chegar no meu destino, ela já havia trocado de roupa, como no teatro. Vestia-se agora de amarelo-ouro, reluzente e chique. As cortinas já haviam sido afastadas para ela atuar lindamente, como uma atriz de cinema.
A Chuva na Roça
Lá na serra, na região do Alto Paranaíba, a chuva caiu com força... Ventos varreram a paisagem líquida. As árvores novas que ladeiam a casa, coitadinhas, foram açoitadas sem dó. A chuva gritava, ensurdecedora. Eu fico pensando: pra onde voam os passarinhos? Onde se escondem? O gado procura se esconder debaixo das árvores grandes, seu guarda-chuva. Ficam com as caras lambidas e ao contrário da chuva, inertes. Geralmente em pé, encostados uns nos outros. Penso que, se sabem rezar, imploram a Deus para lhes livrar dos relâmpagos mortais. E as gentes correm pra dentro de casa e ficam espiando a chuva chover. Quem ainda fuma cigarros, e ainda de palha, sentado em um banco, fica fazendo todo aquele ritual de cortar o fumo, enrolar a palha e lamber as beiradas para fechar o cigarro. Daí acende e dá umas baforadas... Entre uma fumaça e outra, espia a chuva... Os olhos brilham de alegria. Sabe que a chuva é a fazedeira de vida nas roças e no curral. A chuva cai com força, fazendo rios na ladeira, como os dois rios paralelos na minha cara. Sei lá se rios ou mares... Porque têm sal. O sal é um bom tempero. Esse que tem na lágrima tempera a emoção, que fugidia, encontrá palavras para a poesia...
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Feitiço
Você olhou-me esquisito...
Queria dizer
com os olhos de mar,
Talvez
ancorar no oceano que sou.
E nossas
águas saber misturar...
Olhou-me
profundo,
Tão doce,
tão quente...
Águas de
baía a enfeitiçar meu mundo.
Temperos de
mar, temperos de gente.
Feitiço, foi
o que me fez.
Encanto pra
esquecer o pranto.
Pensamentos
de veludo: maciez.
Posso ir pra
outros mares, atiço!
De águas
rasas ou profundas.
Senão fosse
olhar tão doce, feitiço...
Cassia Caryne - 29/08/2020
O caminho
Ao sair de Luz, o sol das 17 horas estava a minha direita. Deitava sua luz nos pastos verdes nessa época do ano. E o verde brilhava, enchend...