domingo, 31 de janeiro de 2021

O caminho


Ao sair de Luz, o sol das 17 horas estava a minha direita. Deitava sua luz nos pastos verdes nessa época do ano. E o verde brilhava, enchendo meu cérebro de energia. Muitas roças de cana e também de soja, cultivadas pela Usina de açúcar, arrendadora de muitas fazendas na região. Cada terreno está de um jeito: alguns foram arados, outros receberam a gradagem e mostram as vísceras da terra vermelha arroxeada por essas bandas. Outros já exibem suas roças bonitas e viçosas. Os fazendeiros já plantaram suas roças de milho e muitas já tem pendão. Não demoram "embonecar", que é quando as espigas soltam a cabeleira loira, transformando a roça num playground de bonecas. E meus olhos curiosos vão captando todas essas coisas, que correm junto com a velocidade do auto. Há muitas árvores que já sei identificar, como as mandioqueiras,  as maminhas-de-porca, as barrigudas, os ipês - mesmo sem flores, os coqueiros indaiá e macaúba, as unhas-de-gato, as sucupiras, mamoneiro e pequizeiros. Ah, os bambus são mágicos para mim. E ladeando as sedes das fazendas,  toda a espécie frutífera, também as gameleiras e os falboyants,  esses últimos me deixam estonteada com sua beleza rubra. Meus olhos espicham tanto, e uma alegria indizível visita-me. - Ah, menina roceira... ocupas sua mente com essas coisas tão sem importância, como se vivesses no mundo da lua...

A Lua


Cheguei a janela do meu quarto e fui surpreendida por ela me espiando. Estava já alta, e o halo lunar lhe esmaecia o contorno. Trocamos outro olhar, cúmplice e cheio de segredos. É que  mais cedo nos encontramos. Depois de uma curva bem fechada na rodovia, à esquerda, por volta das 18:30 h, ela  apareceu-me à direita. Grande e redonda,  parecia vestida de voil branco e transparente. Diáfana lua! E se eu subia ou descia pela estrada, ou virava à esquerda ou à direita, ela brincava comigo de esconde-esconde. Saía detrás das árvores,  pulava feito bola, escondia-se atrás dos morros e barrancos. Reaparecia de novo, arteira! Certa vez,  ficou por uns segundos acima da copa de uma mandioqueira e me lembrou a Sagrada Comunhão acima do cálice,  sustentada pelas mãos do sacerdote. De outra,  ela me apareceu bem à frente, esplendorosa como uma alva noiva. Trocamos um olhar tão compenetrado,  que acho que São Jorge caiu do cavalo! E quando me dei conta,  ela estava no leste e o sol no oeste, manchando o ocaso de tons alaranjados. Eu, no meio, testemunhando um encontro tão intenso e curto no espaço do tempo... talvez o sol chorasse sangue por ela, belíssima noiva! Ao chegar no meu destino, ela já havia trocado de roupa, como no teatro. Vestia-se agora de amarelo-ouro, reluzente e chique. As cortinas já haviam sido afastadas para ela atuar lindamente,  como uma atriz de cinema.

A Chuva na Roça


Lá na serra, na região do Alto Paranaíba, a chuva caiu com força... Ventos varreram a paisagem líquida.  As árvores novas que ladeiam a casa,  coitadinhas, foram açoitadas sem dó. A chuva gritava, ensurdecedora. Eu fico pensando: pra onde voam os passarinhos? Onde se escondem? O gado procura se esconder debaixo das árvores grandes,  seu guarda-chuva. Ficam com as caras lambidas e ao contrário da chuva,  inertes. Geralmente em pé,  encostados uns nos outros. Penso que, se sabem rezar, imploram a Deus para lhes livrar dos relâmpagos mortais. E as gentes correm pra dentro de casa e ficam espiando a chuva chover.  Quem ainda fuma cigarros,  e ainda de palha,  sentado em um banco, fica fazendo todo aquele ritual de cortar o fumo, enrolar a palha e lamber as beiradas para fechar o cigarro. Daí acende e dá umas baforadas... Entre uma fumaça e outra, espia a chuva... Os olhos brilham de alegria. Sabe que a chuva é a fazedeira de vida nas roças e no curral. A chuva cai com força,  fazendo rios na ladeira, como os dois rios paralelos na minha cara. Sei lá se rios ou mares... Porque têm sal. O sal é um bom tempero. Esse que tem na lágrima tempera a emoção, que fugidia, encontrá palavras para a poesia...


O dó


Se um olhar assim me fitasse,  eu perguntaria:

- O que fazes? 

E o olhar: 

- Faço dó!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Feitiço

 

Você olhou-me esquisito...

Queria dizer com os olhos de mar,

Talvez ancorar no oceano que sou.

E nossas águas saber misturar...

 

Olhou-me profundo,

Tão doce, tão quente...

Águas de baía a enfeitiçar meu mundo.

Temperos de mar, temperos de gente.

 

Feitiço, foi o que me fez.

Encanto pra esquecer o pranto.

Pensamentos de veludo: maciez.

 

Posso ir pra outros mares, atiço!

De águas rasas ou profundas.

Senão fosse olhar tão doce, feitiço...


Cassia Caryne - 29/08/2020

O caminho

Ao sair de Luz, o sol das 17 horas estava a minha direita. Deitava sua luz nos pastos verdes nessa época do ano. E o verde brilhava, enchend...